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segunda-feira, 18 de junho de 2012

Pétalas Literárias

Flor Bela

Ó grande sonhadora

De sonhos destroçados,

Inconformada na dor

Que te desfez em pedaços!



 Se ao mundo viesses nos

dias que hoje se vivem,

Encontrarias a luz

De que outrora te privaram

Os vulgares obedientes

Que mencionas nos versos,

Escritos a sangues quentes,

De sonhos e seus berços.



 Mas o fado não deixou

Que fosses mais além:

Encurralada te ditou,

Por esses a quem lhes convém

Não encontrar no mundo

Alma que lhes mude tudo!


Mas permaneces até hoje,

Símbolo ardente d’amor

Por encontrar, num vasto lugar,

Como este em que vivemos

A nossa vida tão vulgar.

Quiseste pintar a cor

Na então incolor treva.

Só um século depois

Verias verde a relva

Que, em ti inspirados,

Semeámos, inconformados.

Obrigado por tudo,

Ó Florbela, flor bela…

Eduardo Nunes
Literatura Portuguesa, 10º F

terça-feira, 12 de junho de 2012

Pétalas Literárias

Poema Inspirado em Resposta a Matilde, de Fernando Namora

“Dois ovos ao fim da tarde”, quem manda é o cliente
Mas como posso eu compreender esta gente?
Tal nunca me tinha acontecido, como é evidente
Ou eu estou a ficar doido, ou ele mente.


Ele é magro e simples no que diz
Será casado? Será feliz?
Ofereci-lhe presunto e queijo, ele não quis
De novo os dois ovos, quanto mais frescos melhor,
Juro por Deus que não entendo o senhor.
Dois ovos e nada mais, todos os dias, por favor!


Perguntei-lhe se não tinha um frigorífico.
“Sim tenho”, respondeu pacífico.
“Então não pode guardar lá os ovos?”
“Não senhor, quero-os fresquinhos e novos!”-
E respondeu-me assim desta maneira!
Já irritado, quis perguntar-lhe se era brincadeira,
Mas sou vendedor de profissão
E, está claro, o cliente tem sempre razão.


Mais dias vieram depois
E todos os dias ele ia buscá-los, dois a dois,
Até que de novo ousei comentar
“Os ovos desta casa devem-lhe agradar,
Vem cá buscá-los sempre antes do jantar”.
Ao que ele retorquiu, sem alterar a expressão
“Não, por acaso não”.
Desta vez, não me consegui conter
Mas que perturbação! Tinha de me esclarecer -
“Então, suponho, sejam para alguém seu conhecido…”
“Não, não, ficam sempre comigo.”.


Mas que dilema! Mas que problema!
Contei tudo à minha mulher
Que disse: “Oh homem, tu estás doido
Se ele não estiver!
Mas um de vocês não está bom do juízo

Eu vou assistir amanhã, se é preciso”-
E a minha mulher foi, e presenciou
Os dois ovos que o homem levou.


O mistério crescia e com ele a ansiedade,
A aflição, o desespero, a descomunal vontade
De saber o raio da verdade!
E foi então que decidi que no dia a seguir
Ia deixar-me de rodeios e inquirir
Aquilo que há semanas me andava a perseguir:


“Mas o senhor faz o obséquio de me explicar…”
E lá lhe pus a minha questão.
“Muito simples”, disse ele, “Para pintar.”
Abriram-se-me os olhos em interrogação
E espanto, e incredulidade, e indignação
“Pintar??”, repeti, sem esconder o que sentia
“Numa parede, sabe as obras na Alameda, ao fundo?”,
Calmamente e bem disposto ele retorquia.
Mas que indivíduo do outro mundo!
Estava a falar verdade ou mentia?
“Isso vai ser um café”, lembrei de repente
“E a sua pintura está a meu cargo, fui contratado pelo gerente”.
“E é com os dois ovos que pinta as paredes por aí fora?”
“Sim. Quer ir lá comigo?”
“Eu? Consigo? Agora?”
“Quando quiser, meu amigo.”
“Posso ir quando fechar a charcutaria?”
“Por volta destas horas, qualquer que seja o dia.”
“Não, de hoje não vai passar!”
E de facto, lá estava eu, depois da charcutaria fechar.


Entrei no café, meio a medo
E ele disse-me que subisse a uma mesa,
Como se se tratasse de um segredo,
Ou de uma grande proeza.
“Repare nas cascas dos ovos e nesse almofariz
É assim que se faz a mistura”, senti-me um aprendiz.
A parede estava cheia de cor
E a minha testa cheia de suor.
O cliente, de facto, tinha razão,
E que vergonha a minha, e que confusão
“Perdão”, proferi, “Toda a minha intromissão…”
“Não tem de se preocupar…”
“E sabe qual é o pior? A minha mulher não vai acreditar!”.

 Maria Teixeira de Barros
Literatura Portuguesa, 10º F


terça-feira, 5 de junho de 2012

Pétalas literárias

Carta a Ruben A.
29-03-2012, Mundo Real

Estimada personagem principal deste livro,
Escrevo-te agora que, já sendo tu completamente, podes perceber completamente as minhas palavras. Quero, antes de mais, dizer que foi um grande gosto conhecer-te. Conhecer a tua história, as tuas ideias e reflexões, a tua vida. Por vezes as tuas descrições eram tão intensas que conseguia, para além de visualizar a tua situação, quase experimentá-la. Tentar ver pelos teus olhos, imaginar como seria existir em duas pessoas, no mesmo tempo, mas em espaços diferentes, sentindo tudo o que a outra sente. Confesso que não foi fácil… é uma ideia brilhante, gabo o teu autor e criador por tê-la tido e por te ter inventado, mas confesso que me transcende um pouco. Tal como partes da tua história em que és confuso no que escreves. Talvez confuso não seja a palavra certa… diria melhor, não imediato? Quase enigmático… se o teu livro fosse água, cada página seria uma esponja a transbordar. Quanto conteúdo num só parágrafo elaborado, quantos sentidos numa única frase! Penso até que por vezes era mesmo essa a tua intenção: não que eu percebesse o que querias dizer, mas que refletisse a fundo sobre possíveis perceções. Por essa mesma razão fui obrigada a reler pedaços da tua história. Não foi como passar os olhos por rios de tinta impressa. Convidaste-me a navegá-los, remar a cada nova ideia e a içar a vela sempre que os ventos fossem favoráveis. Por outras palavras, deste-me uma carga de trabalhos… dizem que quem corre por gosto não cansa, no entanto, eu, apesar de cansada, ganhei um tamanho gosto e vício pela corrida que me propuseste, que só consegui parar quando cheguei à meta. E isto é um facto pelo qual não posso deixar de te agradecer.
   Falas muitas vezes da cidade. Caracterizas e criticas a cidade. Será ela uma personificação? Uma metonímia para pessoas? Não… porque, no mesmo raciocínio, diferencias a cidade das gentes. Penso que te referes à cidade como um todo. Uma mistura das pessoas e da própria cidade, que descreves tão bem. O espaço, a sua história, cada árvore do parque, cada pessoa que nele passeia, os pensamento que pairam no ar, os pássaros que cantam, cada pôr-do-sol, as más e as boas intenções, as mesquinhices, o rio, a Côrte, cada silêncio… tudo faz parte daquilo que designas como cidade. E a ela te referes inúmeras vezes, explicitas a polaridade da sua posição quanto a ti e ao teu caso e falas da vossa relação. Pergunto-me se te achas superior ou inferior à cidade, pois esse é um aspecto em que te contradizes ao longo do livro. Mas isso já são divagações minhas…
   Dizem os críticos às tuas críticas que tens um “humor fino”. Embalada pelo teu sarcasmo e franqueza, não dei uma única gargalhada enquanto lia as tuas palavras meticulosamente bem escolhidas. Houve alturas em que esbocei um sorriso, pelo brilhantismo das tuas ideias. Ou pelo amor e dedicação que tinha a tua ex-namorada contigo na ajuda que te prestava e nas cartas que te mandava. Ou ainda pelo teu carinho ao outro que eras tu – no fundo, a ti mesmo.
   Gostei das descrições de Lyon, que te passava o outro que eras tu. Pergunto-me se o teu autor alguma vez lá esteve. Do que pesquisei da sua vida, nada encontrei… mas pelo que pesquisei de Lyon e pelas tuas descrições fiquei com vontade de ir lá um dia. Quanto ao nosso Portugal… ainda é o mesmo, sem de facto o ser. Eu e tu vivemos em épocas diferentes, onde talvez coisas diferentes aconteçam, mas o facto é que acertaste em cheio em todas as reflexões que fizeste quanto às pessoas e quanto à cidade. Será o país que estava condenado à intemporalidade ou serás tu que estás uns passos largos à frente do teu tempo na tua crítica apurada?
   Compreendi-te nos maus momentos e torci por ti nos momentos de coragem. Quanto a ti, estiveste sempre ao meu lado ao longo da última semana. Abriste-me uma janela para dentro de ti, que me abriu uma porta para o mundo. E assim termino esta curta carta, esperando que ela um dia possa chegar ao destino, perdido algures no mundo da imaginação e da literatura.
   Despeço-me agora com os melhores cumprimentos, os mais sinceros agradecimentos e as maiores admirações da tua pessoa complexa e completa.

   Cumprimentos também ao teu criador, onde quer que ele resida agora,
Maria Barros
Literatura Portuguesa, 10º F

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Pétalas literárias

Carta a Maria Velho da Costa
            A vivência de Maria Velho da Costa encontra-se espelhada na sua maneira de ser: declarou, numa entrevista, que o seu ar austero esconde uma pessoa terna e carinhosa. Perdoar-me-á ao dizer-lhe que, realmente, não é este último género de pessoa que aparenta ser – a própria afirmou que não o deixa transparecer. “Mas porquê?”, pergunto.
            Pergunto, porém temo saber a resposta: foi a vida que teve que a fez como é. A injustiça de que foi alvo – e não me refiro só à relatada/metaforizada em Novas Cartas Portuguesas – deixou-a, a meu ver, desiludida com o Mundo. Não pertencia a ele, ou pelo menos os outros faziam com que quisesse não lhe pertencesse. Achou, por necessidade, fingir-se de zangada com tudo e todos; talvez, desse modo, se arrependessem do que lhe haviam feito. E, somente para os que a tratavam bem – as suas “manas”, por exemplo –, revelava a pessoa que, de facto, era: alguém, segundo diz, atenta e simpática. Se calhar, é mesmo esta a verdade por detrás da sua aparência pouco aprazível.
            Contudo, apesar de entender o porquê desse disfarce, não considero correta a razão do seu uso. Ainda que ninguém, talvez, lhe tenha pedido desculpas, muito mudou; e não deve a mudança, ou o esforço para a alcançar, ser reconhecida?
            Enfim, nada disto interessa, no final de contas. Teria esta carta mais utilidade se gastasse as suas linhas referindo o quanto Maria Velho da Costa enriqueceu Portugal e a sua cultura. Escolhi falar-lhe, no entanto, da sua aparência e do porquê da sua razão. Apercebo-me agora do quão ridículo isso é. Para dizer a verdade, comecei a escrever esta epístola sem saber aonde esta me levaria, mas estava a tentar fugir, ao máximo, referir a sua importância na sociedade; é impossível. É como quando se fala em Gil Vicente, e se imagina teatro; pronuncia-se “Luís de Camões”, e ouve-se Tágides e criaturas mitológicas. Agora, após ler Novas Cartas Portuguesas, sempre que ouvir o nome de Maria Velho da Costa, pensarei inevitavelmente na mulher – sim, a mulher, porque é o que simboliza (e agora não me refiro ao seu ar austero).
            Enfim, reconheço que vim parar onde não queria chegar, e já referi o que é; mas é este o poder da imortalidade artística: levar-nos-á, sempre e inevitavelmente, pelos mesmos caminhos. E, simultaneamente, é este também o seu grande problema.                                                                           
 Eduardo Nunes
Literatura Portuguesa, 10º F


       

Pétalas literárias

Carta a Maria Teresa Horta
            Não a aborrecerei com apreciações que já deve ter ouvido inúmeras vezes, bem como me pouparei na abordagem de detalhes acerca de Novas Cartas Portuguesas – por certo, conhecerá melhor a obra que escreveu que qualquer um dos seus leitores. Não pense que redijo esta epístola como modo de a felicitar por, em conjunto com as restantes Marias, ter escrito um livro que em tanto contribuiu para a liberdade de (quase) todos, hoje, aqui, neste pequeno país a que chamamos Portugal. Apesar de merecer esse reconhecimento – e, da minha parte, tranquilize-se porque o tem –, de que lhe serviria esta carta que lhe escrevo?
            Venho antes anunciar-lhe a minha profunda desilusão relativamente ao que disse numa entrevista, aquando da reedição de Novas Cartas Portuguesas. A causa deste descontentamento – chamemo-lo assim, para não me repetir, afinal escrevo para uma conceituada poetisa – não se encontra propriamente na sua pessoa, apesar de ter vindo de si, porque o que disse é verdade; e é esta inquietante “verdade” o porquê deste meu sentimento de descontentamento. Mas nem tudo foi mau nessa tal entrevista, e, como tal, começaremos pelo melhor: a repercussão que a obra em questão teve no estrangeiro, aquando da sua publicação, desde Washington a Paris, surpreenderá qualquer um; o apoio de famosas escritoras francesas, como Simone de Beauvoir, impossibilita a ausência de um certo orgulho que, de certo, vos (Marias das Cartas) terá atingido.
            Contudo, é o contraste entre essa realidade no estrangeiro (manifestações feministas contra a opressão das mulheres em Portugal) e a que houve e – entristeço-me ao dizer isto – há no nosso país. Ouvi-a dizer “e, durante vinte e cinco anos, o livro esteve esgotado em Portugal. E ninguém se interessou por isso, porque é o livro mais mal-amado em Portugal quanto é amadíssimo no estrangeiro”. E isto, na verdade, assusta-me, porque nos revela que as mentalidades, se a tal afirmação se conferir inteira verosimilhança, ainda pouco mudaram em quatro décadas. Continua a haver injustiças, o machismo a que aludiu, desta vez numa outra entrevista. Mas está tudo disfarçado, como também já estava durante o Estado Novo – tal como escrevem: “a mulher vota, é universitária, emprega-se; a mulher bebe, a mulher fuma, a mulher concorre a concursos de beleza,… ”, na Segunda Carta VIII, justificando a irónica afirmação que antecedera esta enumeração: “Eis-nos em Portugal em plena era da libertação da mulher:”. Sei que muito melhorou desde o 25 de abril, que ajudastes a edificar, no que toca à condição da mulher na sociedade; mas ainda há muito por melhorar, porque ter tudo escrito na Constituição, por meio de frases bem elaboradas, não significa ver aplicado na realidade.
            E, enfim, cá nos encontramos. Não leve esta pequena carta de desabafos muito a sério. O mais certo é que nunca a leia, mas gostava que o fizesse. Serei, certamente, um dos muitos que lhe querem dizer algo do género. Mas a verdade é que isto, que eu aqui critiquei, não se aplica só a Novas Cartas Portuguesas; aplica-se, antes, a muitas das manifestações culturais em Portugal. Enquanto não valorizarmos o que temos, enquanto isso apenas for feito pelo estrangeiro, como nos poderemos livrar da relação de subserviência que com ele estabelecemos?
            Iria agora comparar a relação Portugal-Estrangeiro na atualidade com a Mulher-Homem no Estado Novo, mas tal seria incoerente; na situação feminina que vós retratais, embora a mulher esteja numa posição inferior à do homem (na sociedade, claro está), reconhece que tal está errado e valoriza o que de melhor tem. Gostaria de dizer o mesmo de Portugal, mas poucos podem afirmar que reconhecem o que o seu país lhes oferece, e, como sabemos, o Mundo nunca foi feito de minorias.
 Eduardo Nunes
Literatura Portuguesa, 10º F

Pétalas literárias

Carta a Maria Isabel Barreno
            Na maneira como fala, noto segurança e destemor. E, embora tendo por base apenas Novas Cartas Portuguesas, as mesmas ilações se podem tirar da forma como escreve. São essas características que ajudaram a fazer desta obra uma genuína voz, que gritava uma inabalável vontade de mudança e um destemido inconformismo. Apesar de nem sempre as esperanças no sucesso das cartas terem sido as maiores (ainda para mais, o processo de tribunal de que depois foram alvo – a Maria Isabel e a sua irmandade – não terá ajudado à melhoria dessa mesma convicção), nunca desistiram do projeto: concluíram-no e editaram-no. Todavia, durante pouco tempo esteve à venda em Portugal. Tal não foi, ao contrário do que se possa pensar, o ponto final na travessia da história de Novas Cartas Portuguesas – esta ainda agora tinha iniciado. Acharam por bem fazer chegar exemplares da obra a conceituadas autoras francesas; e aí se demonstrou o poder das mulheres, tão defendido e enaltecido na obra em questão.
O mundo entrou em alvoroço, Portugal estava no centro das atenções, mas não era visto com bons olhos. Todos sabemos que um país vive muito da maneira como é visto pelos seus vizinhos, neste bairro em que todos se dizem conhecer, e ao qual damos o nome de “Terra”. Foi o princípio da retoma dos direitos – não só da mulher, mas de todos os cidadãos (não pensais, estou seguro, de que éreis as únicas injustiçadas no meio de todo o flagelo ditatorial).
Serve, portanto, esta curta carta como forma de agradecimento por nunca terem desistido de chegar ao topo da montanha, contra tempestades de neve e ventos contraditórios. Um grande obrigado por terem incentivado à mudança, ciente(s) dos perigos a que se submeteu (submeteram) na longa caminhada que tinha por fim a concessão da liberdade. Tenho pena que nem todos os portugueses tenham noção do impacto que Novas Cartas Portuguesas teve há quatro décadas atrás, e que, por isso, não valorizem os sacrifícios por que as suas autoras passaram. O meu agradecimento final vai para si, claro, pela sua perseverança em ver edificada a justiça numa época em que, em Portugal, eram quase uma utopia imaginá-la.

Eduardo Nunes
 Literatura Portuguesa, 10º F

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Pétalas literárias

Teste Diagnóstico de Filosofia

Adolescência

Hoje em dia, os adolescentes agem como se estivessem a meio da III Guerra Mundial: em cada esquina um inimigo, alguém que nasceu para lhes arruinar a vida! Um exagero claro, admito-o, mesmo enquanto adolescente.
Como adolescente, não me sinto incompreendido pois muitas vezes nem sequer me mostro disponível para ser compreendido. Quando algo mínimo corre mal, em todos os adolescentes há uma dramatização clara, uma depressão descabida.
Muitas vezes (por experiência própria e por acompanhamento de situações exteriores) a questão da “depressão” deve-se à necessidade de marcar personalidade, de se sentir protegido, de ver que existe preocupação. No entanto, há sempre repulsa por certas pessoas que se mostram disponíveis pois, em muitos casos, só é aceite a ajuda e disponibilidade de um grupo restrito e concreto de pessoas. Deste modo, frases de vitimização como “Ninguém quer saber de mim” demonstram a falta de maturidade por parte de alguns jovens.
Enquanto “quase adultos”, os adolescentes de hoje em dia mostram-se bem distantes da realidade da vida. “A adolescência é a viagem feita entre a doce inocência de infância e a REAL RESPONSABILIDADE DE ADULTO.” Realidade e responsabilidade são duas coisas que não encaixam na maneira de ver e de pensar dos jovens ou adolescentes actuais. Todos caem uma vez, mas o que se vê é que os “nossos” jovens caem demasiadas vezes e recusam-se a crescer, a aprender, a aceitar que as coisas não são como querem! Não aceitam que a infância já passou, renunciam ao peso da responsabilidade!
A meu ver, o que se assiste na maneira de ver e agir dos jovens é um medo (até pânico) do futuro adulto e uma âncora no passado infantil! Ninguém quer ver que, da adolescência para a frente, a vida só pode exigir mais deles. É uma recusa em crescer! Uma estupidez escancarada porque, pessoalmente, a responsabilidade é simplesmente um motivo de orgulho.
E é de todas estas maneiras de ver que nasce a “geração deprimida”, uma geração que chora pelos cantos e se consome porque as coisas não são conforme o desejo de cada um!!
A adolescência não é fácil mas é algo progressivo: a cada erro, uma lição; a cada lição, um pouco mais de maturidade; a cada pedaço de maturidade, um passo em direcção ao adulto firme e real que um dia todos os adolescentes serão! E é isso que todos nós, adolescentes temos que aceitar.
Assim, vejo a atitude dos adolescentes como algo incompreensível e não incompreendido. Existe uma necessidade de instaurar a realidade na cabeça de uma geração que se recusa a vivê-la. Por outras palavras, algo praticamente impossível de alcançar.

Gabriel Guimarães, 10º Ano, Turma B

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Pétalas literárias

Hoje vamos iniciar uma nova secção no nosso blogue, com a publicação de textos criativos, em poesia ou em prosa, dos nossos alunos.
Demos-lhe o título de Pétalas Literárias por se tratarem de textos escritos ao longo do ano por jovens principiantes na arte da escrita, que um dia poderão, quem sabe, florescer como escritores. A qualidade dos textos leva a esta necessidade da sua partilha para que outros possam fruir da sua mensagem ou tomá-los como fonte de inspiração.

Para começar, dois poemas da aluna Maria Barros, por ela declamados no Sarau "De mãos dadas no combate à pobreza e exclusão social", que decorreu na nossa escola no dia 20 de Outubro, e um texto do aluno Eduardo Nunes, ambos do 10º F.

História Triste

Posta de parte, fui posta de parte
Empurraram-me para fora
Do embarque
Mandaram-me embora
E eu estou aqui para contar-te.


Fui excluída
Empurraram-me para fora
Da corrida
E só me resta agora
Caminhar descalça para a saída.


Mas não me deixam sair!
Cospem-me para o meio
E fazem-me cair
Sou aquela que não tem para onde ir, para onde fugir
E que também ninguém sabe de onde veio


Sou um pedaço de lixo
Que ninguém apanha para deitar no contentor
Mas que todos pisam e repisam
Ignorando ou rindo da minha dor


E estou a contar-te isto neste momento
Porque no teu dia a dia não estás atento
A mim e a tantas outras crianças em sofrimento
Mas eu peço-te que a partir de hoje seja diferente
Que deixes de ignorar o meu olhar carente
E, num gesto consciente,
Me estendas a tua mão
Por favor, não custa nada
Para eu te responder com o coração:
                                                      Meu amor, muito obrigada.



Menina da Rua

Face pálida, branca e gelada
Olhos fechados em meia-lua
Choras a dormir o que não choras acordada
Sozinha, abandonada, perdida nesta rua


Até o vento estremece
Ao ver-te assim, desprotegida
E num murmúrio triste sopra a prece
De que alguém te dê amor, felicidade, vida


Pergunto-me como passa tanta gente
Apressada e sem parar, à tua frente
Não haverá uma réstia de piedade
                                                 Nos seus corações?
Parece que têm medo da verdade
E de ver que há uma menina da tua idade
Que merece as suas orações.


Mas nesta gélida noite de luar
Em que mais uma vez choras a dormir
Ouço o teu pequeno coração a palpitar
E não consigo resistir:


Abraço-te, protejo-te debaixo da minha asa
O teu corpo, a tua alma, aquecem comigo
Vou levar-te para minha casa
E fazer com que este poema tenha sentido.


Maria Teixeira de Barros, 10º F

O RIO

     As águas transparentes do rio, cintilantes até – quando o Sol lhes incidia a pique -, iniciavam o seu percurso na nascente. Situava-se numa superfície plana, no cume de uma alta montanha, pelo que de início fluía calmamente, por vezes demais, como se de um fardo estivesse a ser alvo: o de aprender a existir. Depara-se, pouco tempo depois, quando já tinha a noção de que um percurso desconhecido a esperava, com uma encosta e, por ser essa a única hipótese de continuar trajeto e porque parada não podia ficar, desce-a. Era uma longa encosta, mas talvez da sua extensão não tivesse noção porque tudo lhe pareceu passar muito rapidamente. Conheceu novos locais durante esse vertiginoso percurso, brincou com as pedras que as crianças, à sua beira, lhe atiravam, juntou-se a novas águas que, sem dar conta disso, a acompanhariam até ao fim do percurso. Retomou uma velocidade mais moderada quando a descida da colina terminou, acabando assim a etapa do seu trilho de que tantas vezes no futuro se recordaria, invadida por um forte sentimento nostálgico.
     Por durante muito tempo decorreu aquele novo estádio da sua vida. Foi antes um período de descobrir novos horizontes: da serra, passou por aldeias, seguiu até cidades e houve tempos também em que, em momentos dedicados à meditação e ao descanso essenciais ao prosseguimento do trajeto, se afastou por momentos dos amigos que se lhe haviam juntado anteriormente para se lhes reunir mais à frente. Houve prazeres e desgostos, por onde quer que passasse, inevitavelmente.
     Foi mais tarde que, finalmente, decidiu acalmar e assentar. Adotou uma velocidade mais lenta; encontrara a felicidade e queria desfrutar desse seu novo achado. Porém, a transparência que por tanto tempo durou, escasseava agora. O turvo, o opaco, a impureza e também o sujo mostravam-se mais aparentes. Vinham ao cimo da água as grandes questões existenciais, perguntou-se quando chegaria ao fim, que ainda não se vislumbrava, e o que nele existiria: se um vasto leque de novas oportunidades, um novo início ou uma derradeira paragem; esses mesmos pensamentos fizeram com que mais rapidamente corresse, em busca de respostas, e com que a sua felicidade fosse minguando. Pelo caminho, durante essa sua fase, a água daquele rio viu o seu leito aumentar, distraindo-a das questões com que se deparara anteriormente, permanecendo assim durante tanto tempo, que entristeceu quando o que a alegrara se afastou de si, seguindo diferentes caminhos, quando decidiram procurar outras águas a que se juntar.
     Chegou um tempo em que a água não se viu com capacidades para continuar à mesma velocidade. Foi curiosamente no tempo em que avistava já o início do fim; tão rapidamente percorreu para descobrir como ele era e, agora que já o vislumbrava, desapareceu-lhe a curiosidade de como seria terminar o percurso. Essa curiosidade foi substituída pelo medo e pela saudade da colina que, há tanto tempo, percorrera. Porém, e como tudo tem uma maneira de se compensar, avistou uma nova colina. Chegou até ela e começou a descê-la. Não era, no entanto, como a colina que descera noutros tempos. Era mais vertiginosa, navegou por ela muito mais rapidamente, e, olhando para trás, tudo parecia distante e ela sentia-se abandonada. Apercebeu-se de que era uma colina que, rapidamente, a conduzia até ao fim. Porém, tão rapidamente que não pôde sequer ver como o fim era.
      Atrás de si, novas águas vinham e continuam vir. Os seus percursos? Semelhantes.
     Todas as águas e todos os rios terminavam o seu longo percurso na foz, nenhum voltando à nascente para anunciar o que espera todos no tão intrigante final.

Eduardo Manuel Diogo Nunes, 10º F, nº 8