"Livro", de José Luís Peixoto

Ontem estivemos no lançamento do "Livro" de José Luís Peixoto, na Livraria Bertrand.
O autor apresentou o seu livro numa intervenção bem humorada, em que falou da singularidade do título e divagou sobre algumas histórias nele contidas. Leu ainda alguns excertos de que aqui transcrevemos uma pequena parte:

    Eu tinha medo das coelhas paridas. O pai do Cosme ainda era vivo e eu, com sete ou oito anos, escondia-me atrás dele para ver os coelhos pequeninos, de olhos fechados, a guincharem com miudeza. A coelha ficava sentida, tensa, com as garras cravadas no estrume, alerta para cada movimento do pai do Cosme a mudar-lhe a água e a deixar-lhe erva que arrancava à navalha, rama de cenouras, casca de batata ou restos de fruta migada. Nesses dias, sentia alívio quando ele fechava a porta da coelheira. Noutros dias, estando os filhos quase criados e as mães regressadas à sua resignação dócil, o pai do Cosme soltava à vez a população de cada coelheira, minutos de liberdade, e eu ajudava-o a limpar o forro de estrume com um sacho, a folha de ferro a raspar na madeira húmida, o cheiro morno.
    Ainda na França, as contas eram feitas para chegarmos à vila de manhã. Podíamos atrasar-nos, o mais tarde que chegámos foi à hora de almoço. O pai do Cosme estava sempre a esperar-nos à porta com um sorriso desdentado, nascente de monossílabos. Havia também uma tia solteirona do Cosme, uma sombra que tinha vergonha de se rir e que ficava a olhar-nos com curiosidade tímida de menina-velha. Entrávamos na casa fresca, de janelas fechadas, no barracão de alguidares arrumados, no pátio de árvores carregadas de pássaros e tínhamos a noção de que enchíamos esses lugares de cores novas. As trigémeas espalhavam bonecas loiras e cozinhas de plástico de encontro ao cinzento e ao castanho, a mulher do Cosme passava pelas divisões de silêncio como uma bandeira garrida, o Cosme e eu usávamos calças de ganga e sapatilhas.
    Não se notava que vínhamos moídos.
...
    Em chegados, o Cosme podia começar a queixar-se dos fogos ruges, das embutelhagens ou das auto-rutas. O pai dele mantinha um sorriso de não entender e o Cosme murmurava-me:
    É muito anciano, está próprio para toda a sorte de maladias.
    Em 1748, o conde de Chesterfield definiu iletrado como um substantivo que se refere a alguém que é ignorante de grego e latim.
    Depois, quando as trigémeas começavam a ser umas pequenas mulheres, o Cosme não as queria ouvir falar de fiançados na vila, não se haviam de mariar com marrocanos dessa ordem. Se elas se preparavam para fazer um turno, generalmente, virava jalú, quando elas protestavam, ele ordenava:
    Tá gola.
    Elas respondiam:
    Mafú.

Boa leitura!

Mais informação: José Luís Peixoto

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